Sr. Carlos tinha 74 anos e hipertensão controlada há 10 anos. Ou era o que os exames mostravam.
Até desmaiar na padaria. Pressão 220/120. AVC hemorrágico. Internação. Sequelas.
Família perguntando: ‘Mas ele tomava o remédio direitinho… não tomava?’
Não. Ele não tomava.
O Elefante na Sala
40-60% dos idosos não tomam medicamentos conforme prescrito. Não é esquecimento (20% dos casos). É decisão consciente (80%).
Motivos reais:
- ‘Remédio me dá tontura, mas não vou reclamar’
- ‘Tomo dia sim, dia não, pra economizar’
- ‘Vi na internet que faz mal’
- ‘Prefiro natural’
- ‘Não quero ficar dependente de química’
Por Que Não Contam
Medo de julgamento: ‘Vão achar que sou teimoso’
Perda de autonomia: Tomar remédio = admitir doença
Relação médico-paciente ruim: Consultas de 10min, médico que não escuta
Efeitos colaterais não valorizados: ‘Doutor disse que é normal’ (mas não passa)
Os 5 Tipos de Sabotagem
1. O Otimizador: Reduz dose (‘se 1 é bom, meio deve servir’)
2. O Seletivo: Toma diabetes, ignora pressão
3. O Negociador: ‘Tomo hoje porque vou comer churrasco’
4. O Pesquisador: Googleou efeito colateral, parou sem avisar
5. O Exausto: 9 medicamentos 3x/dia, desiste por sobrecarga
Como Família Descobre (Tarde)
Sinais:
- Cartela durando demais
- Pressão/glicemia descontrolada ‘sem motivo’
- Internação evitável
- Remédios no lixo
O Que Fazer
Para família:
✅ Pergunte diferente: ❌ ‘Tomou o remédio?’ ✅ ‘Como você tem se sentido com os remédios? Algum incomoda?’
✅ Valide preocupações: ‘Entendo que não quer tomar pra sempre. Vamos conversar com médico?’
✅ Organize SEM infantilizar
❌ Não fazer: sermão, ameaça, esconder remédio
Para médicos:
- Perguntar verdade: ‘Sr. Carlos, entre nós: você REALMENTE toma todos? Não vou brigar.’
- Investigar POR QUÊ não toma
- Desprescrever quando possível (9→5 remédios)
- Negociar: ‘Esse você PRECISA. Esse outro, podemos parar.’
- Explicar PARA QUÊ serve (não só ‘tome isso’)
Casos Reais
Caso 1: Dona Maria parou estatina (‘engorda’) — teve infarto
Caso 2: Sr. João tomava dia sim/dia não (‘economia’) — descompensou
Caso 3: Dona Ana leu Google (‘efeito colateral raro’), parou — consequência grave
A rebeldia silenciosa mata. Não porque idoso é teimoso. Mas porque ninguém criou espaço seguro pra dizer a verdade.
Se você é família: Pergunte diferente. Escute sem julgar.
Se você é idoso: Conte a verdade. Médico não vai brigar (se brigar, troque).
Se você é médico: Pergunte verdade. Acredite quando disserem que não tomam.
Tratamento que paciente não faz não é tratamento. É ilusão nossa. Perigosa.
Dr. Matheus Dalariva
Médico | CRM – MG71759
Especialista em Geriatria
📍 Rua Professor Joaquim Rodarte, 176 – Centro, Formiga – MG – CEP: 35570-160
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Consulta geriátrica investiga adesão real
Este artigo tem caráter educativo e informativo. Não substitui consulta médica presencial. Sempre busque orientação de um profissional de saúde para avaliação individualizada.



