“Doutor, minha mãe vive reclamando de dor. Já fizemos todos os exames. Não dá nada. Mas ela insiste que está com dor.”
Essa é uma das frases que mais escuto no consultório. E quase sempre, a resposta não está nos exames de imagem ou sangue. Está na saúde mental.
A depressão no idoso raramente se apresenta como a gente espera. Ela não chega dizendo “estou triste”. Ela chega disfarçada de dor nas costas, dor de cabeça, cansaço extremo, problemas digestivos.
E enquanto a família procura a causa física, a doença emocional avança silenciosamente.
Por Que a Depressão no Idoso Vem Disfarçada?
Existem razões culturais, neurológicas e psicológicas para isso:
1. A geração que não fala sobre sentimentos
Muitos idosos de hoje cresceram em uma época onde falar de emoções era sinal de “fraqueza”. Principalmente homens, que aprenderam desde cedo a “engolir o choro” e “ser forte”.
Quando a tristeza vem, o corpo encontra outra forma de expressar: através da dor física.
2. Alterações cerebrais no envelhecimento
Com o envelhecimento, há mudanças nas áreas do cérebro que processam emoções. Em alguns idosos, isso faz com que sentimentos de tristeza, ansiedade ou desamparo sejam “traduzidos” pelo corpo como sintomas físicos.
É o que chamamos de somatização: o sofrimento psíquico se manifesta no corpo.
3. “Não quero dar trabalho”
Muitos idosos evitam falar sobre tristeza ou solidão porque não querem “preocupar a família”. Mas a dor física? Essa eles conseguem verbalizar. É mais “aceitável”.
Então, inconscientemente, o cérebro transforma o sofrimento emocional em dor física — que finalmente será ouvida.
Sinais de Depressão Mascarada no Idoso
Preste atenção se seu familiar apresenta:
- Queixas físicas múltiplas e vagas: “Dói tudo”, “não sei explicar direito”, “parece que estou pesado”
- Exames normais, mas sintomas persistentes
- Piora dos sintomas pela manhã (depressão tende a ser pior ao acordar)
- Perda de interesse em atividades que antes gostava
- Alterações no sono: insônia ou sono excessivo
- Mudanças no apetite: comer muito menos ou muito mais
- Irritabilidade ou apatia (“tanto faz”, “deixa pra lá”)
- Fala sobre morte ou “não servir pra mais nada”
- Queixas de memória (depressão pode simular demência — a chamada “pseudodemência depressiva”)
O Caso da Dona Maria (Nome Fictício)
Dona Maria, 72 anos, chegou ao consultório com a filha. A queixa: dor nas costas há 6 meses. Já tinha feito raio-X, ressonância, consultado ortopedista, fisioterapeuta. Nada resolvia.
Perguntei: “Como está sua rotina, Dona Maria?”
“Ah, doutor… acordo, tomo café, fico sentada. Às vezes vejo TV. Durmo cedo porque não tenho o que fazer.”
“A senhora sai de casa?”
“Não, doutor. Depois que meu marido morreu, não tenho vontade de nada.”
Ali estava a resposta. A dor nas costas era real. Mas a causa não era ortopédica — era depressão não diagnosticada.
Após 8 semanas de tratamento adequado (antidepressivo + acompanhamento psicológico + reativação social), a dor diminuiu significativamente. Não porque “era fingimento”. Mas porque a origem era emocional.
Por Que Isso Acontece? A Conexão Corpo-Mente
Nosso cérebro processa dor emocional e dor física nas mesmas áreas neurológicas. Por isso, uma pessoa deprimida pode literalmente sentir dor — não está inventando.
Além disso, a depressão altera neurotransmissores como serotonina e noradrenalina, que também estão envolvidos na modulação da dor. Quando esses neurotransmissores estão desregulados, o limiar de dor diminui: tudo dói mais.
Como Diferenciar Dor Física de Dor Emocional?
Não é uma questão de “ou/ou”. Muitas vezes, as duas coexistem. Mas alguns sinais sugerem componente emocional importante:
- Dor que migra (hoje é nas costas, amanhã é no estômago, depois é dor de cabeça)
- Dor desproporcional aos achados de exames
- Dor que piora em momentos de estresse emocional
- Dor acompanhada de sintomas depressivos (tristeza, choro fácil, desesperança)
- Dor que não responde a tratamentos físicos convencionais
O Tratamento da Depressão Mascarada
O tratamento precisa ser multidisciplinar e integral:
1. Medicação antidepressiva
Sim, antidepressivos podem reduzir dor física. Não porque “a dor é psicológica”, mas porque eles agem nos mesmos neurotransmissores que modulam dor e humor.
2. Psicoterapia
Terapia cognitivo-comportamental tem excelente evidência científica para depressão no idoso. Ajuda a ressignificar perdas, lidar com luto, construir novos propósitos.
3. Reativação social
Solidão é epidemia entre idosos. E solidão mata — literalmente. Reintegrar o idoso a atividades sociais, grupos, hobbies, é parte fundamental do tratamento.
4. Atividade física
Exercício libera endorfinas (analgésicos naturais) e melhora humor. Não precisa ser academia — caminhada, dança, hidroginástica. O que importa é mexer o corpo.
5. Tratamento da dor física também
Se há artrose, hérnia, ou outra condição física real, ela precisa ser tratada também. Não é “tudo emocional” — mas a emoção amplifica a dor.
O Que a Família Precisa Saber
1. Não diga “isso é frescura”
A dor é real. O sofrimento é real. O que precisa ser investigado é a origem, não a veracidade.
2. Pergunte além do sintoma
“Como você está se sentindo?” é diferente de “Onde dói?”.
3. Observe mudanças de comportamento
Se antes era ativo e agora está apático, algo mudou. E merece atenção.
4. Não force otimismo
“Você tem que ser feliz, tem tudo” só piora. Valide o sentimento: “Eu vejo que você está sofrendo. Vamos procurar ajuda juntos?”.
5. Procure um especialista em geriatria
O especialista em geriatria está treinado para identificar essas manifestações atípicas de depressão. Não é só “médico de idoso” — é quem entende que envelhecer é complexo, e que corpo e mente não se separam.
Quando Buscar Ajuda Urgente
🚨 Procure avaliação médica imediatamente se:
- O idoso fala sobre morte ou suicídio
- Recusa alimentação ou medicação de forma persistente
- Apresenta apatia extrema (não sai da cama, não se comunica)
- Tem histórico de tentativa de suicídio
- Perdeu peso significativo rapidamente
Depressão no idoso é uma emergência médica. E quanto antes tratada, melhor o prognóstico.
Considerações Finais
A depressão mascarada não é “frescura”, “mania de chamar atenção” ou “pirraça”. É uma doença real, com base neurobiológica, que se manifesta de forma atípica no idoso.
E o mais importante: tem tratamento.
Se você reconhece seu familiar nessas descrições, não espere. Agende uma avaliação geriátrica completa. Porque dor crônica sem causa aparente merece investigação além do corpo, merece olhar para a alma também.
Envelhecer não precisa ser sinônimo de sofrer. E você não está sozinho nessa jornada.
Dr. Matheus Dalariva
Médico Especialista em Geriatria| CRM – MG71759
📍 Rua Professor Joaquim Rodarte, 176 – Centro, Formiga – MG – CEP: 35570-160
📱 WhatsApp: (37) 99855-4927
📞 Telefone: (37) 3322-3883
Este artigo tem caráter educativo e informativo. Não substitui consulta médica presencial. Sempre busque orientação de um profissional de saúde para avaliação individualizada.



